Primeiro de tudo: por que "gordo" é ofensa?
Sendo gorda a pessoa que possui gorduras em excesso no corpo e sendo eu uma pessoa que possui gorduras em excesso, a resposta lógica é que sou gorda.
Não digo isso para receber elogios, até porque o que ouço não é um elogio, é uma advertência. "Que absurdo! Você não é gorda (não se ofenda)!" Também não o faço esperando que me digam o contrário, porque seria, no mínimo, idiota. Vestindo atualmente 44, em cima e embaixo, é impossível me enquadrar como alguém magro. Digo que sou gorda porque me aceito assim.
Às vezes me olho no espelho e me vejo com a silhueta mais fina, mas não passa de uma artimanha do meu subconsciente, que tem nele enraizado que, para ser bonita, devo ser mais magra. A calça arrochadinha nas coxas que roçam umas nas outras sempre me dão a prova real, nesse caso. Mas mesmo não tendo afinado, continuo confiante de que estou, sim, bonita. Eu sou bonita (minha mãe me disse ♥).
Dissociar beleza de biotipo me parece uma falácia de tamanho imensurável, pois com papada ou sem, ainda há um rosto ali. Ainda há os traços que, individualmente, achamos bonitos/feios. Eu, particularmente, adoro sorrisos simétricos, então pessoas com esse detalhe possivelmente serão consideradas mais bonitas que as demais, por mim. No entanto, eu posso ainda vir a me apaixonar por alguém cujo sorriso é tortinho, um dia. "Mas a paixão não tem a ver só com o físico", me dirão, e eu concordo plenamente! A beleza também não é.
Tudo aquilo que gostamos, em algum momento, foi estranho para nós. O contato contínuo, a experiência com o objeto estranho é o que nos faz decidir se gostamos dele ou não – e para tal, precisamos nos mostrar abertos. Ao nos deixarmos aceitar o que acreditamos ser feio – e, portanto, evitado – como algo que pode ser natural aos nossos olhos, ou até mesmo ser relevado em comparação a outros atributos de maior destaque, passamos a enxergar o outro como não só um sorriso torto, mas alguém bonito (com sorriso torto). A questão é a de deixar de apontar o "defeito" do outro como fator que ofusca todo o resto. Uma pessoa "bonita, mas gorda" é uma pessoa bonita E gorda. Os dois estão presentes simultaneamente, e se você vê como natural o excesso de gordura ali, não é preciso anunciá-lo, pois ele é somente parte de alguém, como um braço. Todo mundo sabe que o braço está ali, todo mundo está vendo. Não há necessidade de dizer "A fulaninha é bonita, mesmo tendo dois braços".
Tendo consciência disso e do meu próprio corpo, quando me dizem que engordei, por que eu me ofenderia? Quando eu mesma digo que engordei, por que os outros se ofendem por mim (e tentam me advertir sobre o peso disso – desculpa, não aguentei guardar o trocadilho, rs)? Por que o meu estado atual deveria me reprimir de alguma forma? Por que somente (e unicamente) os obesos recebem esse título, sob um cuidado enorme ao ser dito? Por que imediatamente pensam que estar gordo é estar doente?
Estou consciente das minhas medidas, saudável e satisfeita com isso. Não preciso que me defendam de como eu me vejo. Não me ofendo ao me dizerem o óbvio.

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