Há aquela frase clichê na vida de toda pessoa que se muda com muita frequência:
Você tá gostando daqui?
Até o atual momento, quando sou pega não de surpresa por essa pergunta, fico presa entre o desconserto e a necessidade de agradar a quem me ouve. Logicamente, ninguém quer ouvir uma resposta negativa sobre o lugar que mora, mas dizer que sim, estou gostando, é uma mentira bem notável, uma vez que não consigo disfarçar bem coisas tão ligadas ao meu interior.
De todas as quatro mudanças de cidade, voltar para o Rio foi a mais contrastante. Eu nasci em uma cidade que não para, que consegue ter uma feira de rua às 22h, ao lado da estação do trem, e os ônibus rodam 24h (apesar dos pesares). Aqui há mais cordialidade, sim; eu nunca vi em Curitiba (a cidade modelo) tantas pessoas cederem os lugares nos ônibus para idosos e gestantes como vejo nas quase 4h diárias de transporte público que passo. Há mais oportunidades também, nem preciso citar um exemplo.
Eu nunca estive completamente fora do Rio, uma vez que toda a minha família é naturalmente daqui. Vez ou outra, eu aterrizava para um final de semana, feriado, férias... Entretanto, mesmo nos primeiros anos, quando estive a só 2h30 de distância, eu já não sentia mais que pertencia a esse lugar. Em Friburgo já percebi que eu não era lá tão carioca assim, e a minha sorte era do sotaque ser o mesmo.
O engraçado é ver/ouvir dos outros como eu era super carioca, não me imaginavam ser de outro lugar. Em Curitiba, meu sotaque logo me entregava, se em algum momento minha fisionomia causou dúvida — acima do sul é mais difícil saber de onde vem o tom de pele, aparentemente. A pergunta sempre esteve presente em qualquer primeiro contato, obviamente; a resposta já era diferente da cidade anterior, que havia me acolhido como o interior costuma fazer. O sul era um lugar completamente diferente: estranho, disfarçado de paraíso. Dos três anos passados ali, somente por alguns meses eu me senti em casa.
Pulando em tantos galhos diferentes, parei em Brasília e ali me achei. Em uma cidade com tanta diversidade, tantas pessoas de lugares tão diferentes — a ponto de ser difícil achar um brasiliense(!) —, consegui aquietar a constante sensação de me sentir estrangeira, alguém que não pertence ao lugar onde está. Estando mais confortável ali, consegui finalmente responder positivamente o lugar-comum que me perseguia. E ao me dar conta de que gostava do quadradinho, gostei ainda mais. Aprendi a viver como parte dele, da cidade populosa com ar de interiorana. Posso dizer que foi meu primeiro caso de amor, de fato.
Se eu dissesse que "talvez" por isso estivesse tão relutante quanto ao Rio, estaria novamente presa entre o desconserto e a necessidade de agradar. Eu não odeio o lugar onde nasci, pelo contrário, gosto de manter muitos dos costumes que só aqui se encontra. (E é verdade: eu amo muito mais Brasília que qualquer outro lugar.) Contudo, é impossível me chamar de carioca, sabendo que mal vivi o Rio. Somente nascer em um lugar não faz de ninguém parte daquilo; de 21 anos de vida, 11 estive fora da cidade maravilhosa. Aqui, como em Curitiba, ainda há a sensação de não pertencer.
Devido a todas as circunstâncias, me tornei uma forasteira na minha terra natal.
Devido a todas as circunstâncias, me tornei uma forasteira na minha terra natal.

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