Sobre a minha identidade

Sou pobre, negra e tenho quilos a mais. Não sinto vergonha de nenhuma dessas qualidades, por isso as exponho dessa forma. Eu poderia ter dito que sou "Fabiane, tenho 20 anos e estudo na UnB", mas esse texto não é sobre méritos ou o que aparenta interessante para os outros. Na verdade, é por ter andado tanto em desalinho com a Publicidade que quase joguei tudo pro alto e saí da faculdade; a principal premissa de tentar convencer o outro de que algo é bom me parece bastante redutiva, agora. Eu diria até um pouco triste. Mas esse não é foco, então continuemos.
Sou pobre e moro em Brasília. Alguém dos círculos sociais que me incluo (devido às circunstâncias) tem noção do que é isso? Não digo com o intuito de me vitimizar, até porque, honestamente, sou bem sortuda e nunca passei por momentos realmente difíceis. Tive momentos de aperto aqui e ali, dias em que contei moedas pra comer durante a semana e em alguns casos tive que abrir mão de coisas que quis porque não conseguiria arcar com as despesas. E isso eu digo por mim, sem envolver meus pais, que com esforços deles conseguem me sustentar. Por mais que às vezes eu perca a noção e gaste um pouco mais do dinheiro que eles me dão, se acabar o meu, acaba o deles também. Quando eu digo que não vou a evento x por falta de dinheiro, há quem pergunte "Só por isso?", como se fosse banal. Nessa cidade é quase impossível as pessoas entenderem isso sem que, de fato, passem aperto. Até mesmo os amigos que moram sozinhos, nem todos passam dificuldades, porque, em alguns casos não tão raros, os pais também moram na cidade e qualquer coisa já estão ali pra ajudar. (Que fique claro, eu não os recrimino por buscar a própria independência. Parabéns pela iniciativa que eu não teria.)
Além de pobre, sou negra. Eu me identifico como uma mulher negra, apesar do "mas você nem é... da cor". Primeiro, explicando minha descendência: um lado da família paterna era Scarpellini, da Itália, enquanto o outro era índio, daqui do Brasil mesmo. Meus avós, gerados nessa mistura toda, são brasileiros já miscigenados. Na família materna, minha avó era filha de negão e meu avô, filho de portugueses, brigou com os pais pra ficar com ela na sua juventude. Aí meus pais se conheceram no colégio, se juntaram e, quase 21 anos depois, estou eu aqui. Meu cabelo não nega minhas raízes, e embora as gerações tivessem sido "embranquecidas", elas não deixam de ser negras também. Assim como não deixam de ser brasileiras e europeias também.
O centro-oeste é o lugar em que eu mais vi pessoas com o mesmo tom de pele que eu, e também o lugar que mais vi gente dando nome diferente pra própria cor. Não que "passou de branco, é preto", porque seria um tanto radical, mas já ouvi até "açúcar mascavo" como substituto da palavra que causa tanto medo, quando nos referimos a outra pessoa. (Aliás, se uma pessoa é negra, não diga que ela é "escurinha", porque o que é escuro não tem branco o suficiente. Negro é negro.) É, também, o lugar em que mais vejo as pessoas serem elogiadas por assumirem um padrão não-europeu de beleza, pois requer muita coragem. Onde que entra o medo de ser o que é, alguém me diz? Se meu cabelo é cacheado quase crespo desde que nasci, onde tá a coragem de mantê-lo da mesma forma?
(Um adendo: meus dois anos de progressiva, definitivamente, não valeram a pena tanto quanto o cabelo natural. É melhor assumir um bad hair day que meses de raiz cacheada com pontas sem forma, que não parecem nem lisas.)
Sobre meus quilos a mais, não é exagero ou uma forma de conseguir elogios pela minha boa forma. Boa forma eu tinha aos 13 anos, com 14 eu engordei como uma porca da roça e desde então não chego mais ao meu peso ideal. O que isso mudou na minha vida: consigo vestir as mesmas roupas que qualquer pessoa, desde que estejam de acordo com o meu gosto. Eu não vou à academia, não gosto tanto assim de praticar esportes e muita gente concorda comigo. Mas se eu falar do meu "buchão", aparecem vinte mil "ah, para de brincadeira, você é magra". Já dizia a Meg Cabot, "tamanho 42 não é gorda", mas magra também não é. Eu não preciso ser obesa pra ter quilos a mais. Eu não preciso de falsa modéstia pra aceitar o meu corpo. Parem de querer me dizer como eu sou, porque eu sei como eu sou.
Eu sei também que em uma cidade com tantas pessoas tão bem sucedidas, a galera que vive uma vida mais simples tem de se desculpar por não frequentar os mesmos lugares. Quem é negro na cidade dos ricos é "corajoso" por andar de blackpower, terno e gravata. Quem não é fitness e gosta de cultuar um corpo escultural, obrigatoriamente não pode se assumir com nenhum biotipo, que é algo hereditário e não tange a força de vontade. Desculpem-me os outros, mas eu não vou me desculpar pela minha falta de dinheiro. Também não vou me considerar ousada porque resolvi deixar meu cabelo, que é cacheado, cheio e difícil de lidar - e que é meu dever aprender isso -, solto pra combinar com qualquer roupa que seja. Cabelo armado não é sinal de bagunça, não, pelo contrário; dá muito trabalho deixá-lo armado e bonitão como a juba de um leão. Muito menos vou deixar que me reprimam por eu dizer que estou fora de forma. Roupa que disfarça existe (e eu tenho) aos montes, não significa que meus quilos extras não existem. 
Ser gorda não é motivo de vergonha. Ser preta também não. Ser pobre, menos ainda. Vergonha é procurar na imagem dos outros algo para jogar contra eles. (Ou então se aproveitar de palavras pejorativas para tentar comover o próximo.) É não ter para si a própria imagem, fingir que é outra coisa.
Eu sei tudo que sou e me identifico com isso, é parte de mim. 

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