Eu nunca entendi bem essa
história de “cabelo ruim”. É engraçado, porque desde que nasci eu tive cabelo
cacheado, armado, comprido e muito bem preso. Ele não incomodava ninguém além
de mim, que passava um bom tempo o penteando e prendendo com muitos tic tacs. Ele
permanecia assim durante o dia, sem levantar nenhum fio suspeito, logo, todos o
consideravam bom. Como que um cabelo sempre controlado podia ser ruim?
Conforme fui crescendo, via minhas
amigas desfilando com os lindos cabelos lisos delas. Em uma cidade com
descendência quase toda europeia, eu me sentia estranha por ser uma das poucas
de cabelo cacheado. Até as colegas negras da escola tinham cabelo liso, menos
eu; por que eu tinha de ser diferente?
Minha mãe nunca me explicou o
motivo de eu ser terminantemente proibida de fazer qualquer tipo de química no
cabelo. A mãe da minha vizinha dizia que já tivera cachos quando era novinha,
mas de tanto mexer no cabelo, tinha perdido tudo. Aquilo era ao menos possível?
Em um momento daquela fase onde
os seios crescem, me senti esquisita. Eu tinha todas as mudanças que as meninas
comuns tinham: estava crescendo, criando cintura, meus pelos apareciam aos
montes e eu queria a qualquer custo arrancá-los com a gilette, mas o meu cabelo
continuava o mesmo de sempre. Continuava estranho, imprevisível e sempre
pedindo por um prendedor de qualquer natureza. Ele precisava tomar um jeito!
Uma vez, vendo o programa matinal
do canal aberto, a apresentadora – que também tinha cabelos lisos – contou que,
no passado, as meninas usavam ferro de passar no cabelo e funcionava muito bem.
Era aquela a saída, então. Se uma famosa
já tinha usado, eu também podia. Lembro até hoje do quanto aquela ideia genial
fritou não só os meus fios, mas a minha autoestima quando apontaram pra mim e
perguntaram “Por que seu cabelo tá liso?”. Eu não podia? Não seria aceita? Por
que ninguém me avisou?
Durante anos fui obrigada a
conviver com aquele amontoado bagunçado de fios que eu não podia pentear seco,
como minha melhor amiga fazia. Por muito tempo eu odiei o fato de não ser como
as minhas colegas de turma, com o cabelo normal. Insisti por meses a fio até
que minha mãe finalmente me deixasse alisar de alguma maneira, e o segundo
tombo na minha autoestima veio quando paguei caro por uma progressiva e, duas
semanas depois, ela já vinha perdendo o efeito. Em um mês, os cachos estavam
todos de volta.
Não foi naquela época que desisti
da ideia. Continuei por mais alguns anos aproveitando o que o tratamento de
beleza fizera no meu cabelo, usando a chapinha por mais ou menos duas horas para
que eu parecesse apresentável durante três dias. No restante da semana, eu
ficava em casa ou fazia tranças, coques, tudo que escondesse o aspecto feio de
coisa que não deu certo. Até que eu percebi que não tinha todas aquelas horas
para me dedicar à chapinha, eu tinha compromissos e tarefas para fazer. Também
não tinha todo o dinheiro que gastaria quase todo mês, somando uma pequena
fortuna no fim do ano – pra universitário, qualquer dinheiro é MUITO dinheiro.
Resultado: eu fui obrigada a conviver com algo pior do que eu tinha antes e
muito longe do que eu queria ter. Eu nunca teria um cabelo liso, a menos que me
tornasse escrava do formol ou da amônia. Eu nunca seria como as meninas de
Friburgo, e minha mãe sabia disso, eu só era muito nova para entender. Eu nunca
percebi como aquela obsessão por parecer o outro, totalmente diferente de mim,
me machucava até eu deixar de gostar de mim mesma. Eu nunca tinha parado para
ver como estava acabando com o que eu tinha de melhor, a minha individualidade.
Meus cachos eram o que me
identificavam, no meio de tanta cabeça lisa. Eu tinha minha própria assinatura.
E ela não me fazia mal, ela me dava a chance de aprender a cuidar de mim; de
experimentar novos hábitos; de não me ver tentando ser reflexo do outro. Se
minha personalidade era diferente, minha imagem não tinha que ser igual.
Naquela transformação do que era belo para mim, eu percebi:
O único momento em que eu tive
cabelo ruim foi quando eu quis ter o “normal”.

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